As vezes fico pensando em quantos dos meus desenhos não existiram por causa do meu perfeccionismo desenfreado. Quantas árvores foram sacrificadas no meu eterno arremesso de papel amassado ao cesto de lixo.
Perdi as contas de quantas vezes larguei um desenho pela metade, porque a pintura estava meio borradinha ali no canto, ou porque o traço não estava tão firme quanto eu queria. Ou porque simplesmente nhé, não rolou.
Me sentia mal por tanto desperdício. Queria saber se eu era a única a viver o drama da busca pela perfeição nos meus desenhos. Ficava admirada de pensar em caras como Michelangelo. Será que ele não tinha medo de “errar a mão” na Capela Sistina? como ele conseguia?? Aiai *suspiro*
Com a chegada do computador as coisas ficaram mais práticas. Já dava para desenhar sem me sentir uma assassina de árvores. O Control+Z se tornou meu melhor amigo. Porém a busca pelo “não-sei-o-quê” nos desenhos continuava bloqueando a inspiração e matando muitos desenhos precocemente.
Na faculdade, tendo pela primeira vez contato com gente que também sabia desenhar, percebi que o drama era geral.
O professor quase morria para explicar que estávamos errados em atropelar todo o processo criativo em busca da arte final perfeita. Que esta racionalidade dificultava a fluidez dos desenhos, tirando sua essência. Que alguma imprecisão, risquinhos, marcas de pincel muitas vezes é o que davam um charme no final, que o tornava único.
Pintura feita em 2004 - Acrílica sobre cartolina - 60 X 60
Sem toda aquela cobrança interna o desenho surgia naturalmente no papel. Vi que até mesmo aqueles trabalhos que começavam meio “nhé” podiam me surpreender no final.
Assim aprendi que desenhar era mais uma questão de sensibilidade que de técnica. Técnica você pode ensinar, mas sensibilidade ou você já nasce com, ou fica o resto da vida fingindo que tem, igual muito homem por aí.
Sensibilidade é a matéria-prima da criatividade. É o combustível que faz você absorver o mundo e transforma-lo no que bem entender, inclusive em desenhos.